Introdução
Você já deve ter visto essa pergunta pipocar nas redes sociais.
Posso usar checklist numa perícia?
Devo usar checklist numa perícia fisioterapêutica ou ergonômica?
E junto dela vem o rótulo.
“Douglas tem ranço de checklist”.
“Checklist é porcaria”.
Calma. Isso é leitura preguiçosa.
O problema nunca foi o checklist. O problema é o uso acrítico dele dentro da Fisioterapia Forense.
A perícia não é um formulário. É um ato solene
Antes de qualquer coisa, você precisa lembrar disso.
A Perícia Fisioterapêutica é o ato mais formal e intenso da nossa profissão.
Você não foi nomeado para marcar quadradinhos.
Você foi nomeado porque existe uma presunção de verdade técnica no que você escreve. Aquilo que o perito produz orienta decisões judiciais, indenizações, reconhecimento ou não de nexo causal.
Simplificar demais isso é jogar fora a sua expertise como Fisioterapeuta Perito.
Onde o checklist entra nessa história
Checklist pode ser útil, sim.
Mas como ferramenta auxiliar, não como sentença final.
Ele serve para organizar o olhar, lembrar pontos importantes, criar um norte inicial.
O erro é tratar o resultado final do checklist como se fosse ciência dura e definitiva.
E aqui entra um ponto que muita gente ignora.
Checklist, na maioria das vezes, não tem validação científica robusta que comprove que aquela pontuação final corresponde de forma direta ao risco ergonômico real ou ao adoecimento.
Evidência científica vem antes de praticidade
Dentro da pirâmide das evidências, você deve priorizar métodos com maior sustentação científica.
Quando você compara um checklist genérico com normas técnicas, como as normas da ISO, a pergunta é simples.
Qual tem mais peso técnico e jurídico?
A resposta não é confortável, mas é honesta.
Normas validadas superam ferramentas simplificadas.
O erro clássico nas perícias ergonômicas
Vou ser direto.
Aplicar ferramentas como OWAS, RULA ou REBA com uma ou duas fotos é um erro técnico grave.
O próprio método OWAS recomenda análise contínua da tarefa por 20 a 40 minutos, com extração de posturas ao longo do tempo.
Uma foto isolada não representa oito horas de trabalho.
Isso não é rigor técnico. É atalho.
E atalho em perícia costuma custar caro quando o Assistente Técnico do outro lado sabe o que está fazendo.
Checklist bom existe? Sim. Mas não faz milagre
Existem checklists bem construídos, como os desenvolvidos por Hudson Couto.
Eles carregam décadas de experiência profissional e fazem sentido como apoio.
Mesmo assim, até onde se sabe, não são ferramentas formalmente validadas como norma técnica.
Respeito existe. Cegueira técnica, não.
O diferencial do fisioterapeuta não está no checklist
Aqui está um ponto que muitos colegas não querem encarar.
O fisioterapeuta tem algo que nenhum checklist entrega.
Capacidade de análise biomecânica e funcional.
Você entende de movimento adoecendo gente.
Esse é o seu ouro.
Na prática, os fatores padrão ouro de risco ocupacional continuam sendo:
- Posturas inadequadas em extremos articulares
- Imposição de força e contrações sustentadas
- Movimentos repetitivos com o mesmo grupo muscular
- Compressão mecânica de tecidos
- Vibração localizada ou de corpo inteiro
Isso está amplamente descrito na literatura científica.
Nenhum checklist substitui esse raciocínio.
Hackeie o checklist, não seja escravo dele
Use o checklist como guia, não como veredito.
Extraia dele o que interessa e aprofunde.
Em vez de escrever “alto risco pelo checklist”, escreva:
- houve elevação de ombro acima de 120 graus
- tempo de exposição prolongado
- associação com imposição de força
- ausência de pausas adequadas
Isso é Fisioterapia Forense de verdade.
Isso conversa com o juiz.
E o respaldo legal? Existe
O artigo 473 do CPC é claro.
O perito deve utilizar métodos predominantemente aceitos pelos especialistas da área.
Ferramentas como RULA, REBA e OWAS são amplamente utilizadas.
Você não será destituído por isso.
Mas atenção.
Aceitação não significa excelência.
Um Assistente Técnico experiente vai explorar cada fragilidade metodológica sua se você simplificar demais.
Perícia não é rasa. É profunda
Vou ser honesto, como faço com meus alunos.
Se eu pegar uma perícia baseada em meia dúzia de dados, um checklist e duas fotos, isso não é laudo. É formulário mal preenchido.
A perícia exige descrição da tarefa real, escuta ativa do trabalhador, cruzamento de informações e análise técnica profunda.
Isso é o que diferencia um laudo esquecível de um laudo decisivo.
Conclusão
Checklist pode usar?
Pode.
Deve usar?
Depende de como.
Na Fisioterapia Forense, checklist não substitui ciência, não substitui raciocínio clínico e não substitui responsabilidade técnica.
Use com parcimônia.
Aprofunde a análise.
Honre o peso da nomeação como Fisioterapeuta Perito.
Se você quer ser apenas mais um, marque quadradinhos.
Se quer ser referência, pense, descreva, fundamente e sustente.
E agora eu te devolvo a pergunta.
Você usa checklist como muleta ou como apoio técnico?