Ao realizar uma avaliação ergonômica ou perícia judicial de nexo causal para hérnia inguinal e umbilical, muitos profissionais cometem o erro de procurar imediatamente qual ferramenta ergonômica aplicar.
No entanto, a grande verdade no campo da fisioterapia forense e ergonomia é simples: não existe uma ferramenta ergonômica específica para hérnia inguinal e umbilical.
Neste artigo, explicamos como abordar corretamente esses casos a partir da análise da biomecânica e da tarefa real.
O Papel das Ferramentas Ergonômicas
As ferramentas ergonômicas devem servir como um instrumento complementar à avaliação da tarefa real e da biomecânica ocupacional, e não como o ponto de partida.
Existem ótimas ferramentas padronizadas para determinados fatores de risco e segmentos corporais:
- Membros superiores (repetitividade): Utiliza-se, por exemplo, a norma internacional ISO 11228 (Anexo 3).
- Coluna lombar (levantamento e transporte de cargas): Utiliza-se a ISO 11228 (Anexo 1) para mensurar a sobrecarga lombar.
Porém, quando o foco da avaliação é a hérnia inguinal ou umbilical, travar buscando um checklist ou software pronto pode induzir ao erro.
Biomecânica Ocupacional e Fatores de Risco
Para avaliar se o trabalho contribuiu ou causou a patologia, o profissional deve focar no conhecimento biomecânico:
- Aplicação de Força + Manobra de Valsalva: A combinação da imposição de força excessiva com o aumento da pressão intra-abdominal (manobra de Valsalva) é um dos principais fatores ocupacionais associados a hérnias. Exemplo: levantar/transportar caixas pesadas ou puxar e empurrar paleteiras e carrinhos com esforço excessivo.
- Fatores Constitucionais e Não Ocupacionais: Tanto a hérnia inguinal quanto a umbilical possuem forte componente congênito/constitucional. Fatores como predisposição genética, idade e histórico pessoal pesam significativamente no diagnóstico.
Passo a Passo para uma Boa Avaliação Pericial
Em vez de focar na aplicação de uma ferramenta, o raciocínio pericial deve seguir esta metodologia:
- Coleta de Depoimentos: Ouvir atentamente o relato do reclamante e da reclamada.
- Análise da Tarefa Real: Ir até o local de trabalho para observar e compreender exatamente como a tarefa é executada no dia a dia. A “tarefa real” é o fator soberano na avaliação.
- Análise Biomecânica: Verificar se na execução real existem momentos de sobrecarga intra-abdominal com esforço físico relevante.
- Raciocínio Pericial Completo: Cruzar a história clínica com o tempo de serviço, a idade, o histórico laboral/pessoal e a literatura científica específica para definir se há nexo causal ou concausalidade.
Conclusão
Não tente forçar o uso de ferramentas inadequadas para avaliar hérnias abdominais. O diferencial do perito e do ergonomista está na capacidade de analisar a tarefa real, fundamentar a biomecânica ocupacional e correlacionar com a literatura técnica e o histórico do indivíduo.